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Ao Tempo

Na fotografia que apresento, posso considerar um ponto de vista caracterizado pela distância inflexível e única que uma imagem pode enquadrar. Assim sendo, a imagem dá lugar ao distanciamento do tempo e a mostra como algo que se finou, tal como define o autor Roland Barthes. Por esta via, este instante “agora-passado” pode ser compreendido na fase de publicação da imagem numa página da internet e, longe também, do ato de carregar no botão obturador da câmara. Podemos ainda obter pela expressão com que são consideradas as questões da cor esse distanciamento no tempo – há um balanceamento nos verdes que definham a vivacidade da relva e a tornam insípida, sem vigor, como se murchasse cada vez que a observamos na fotografia. Outra consideração em relação ao tempo passado é entendida no movimento repetitivo das formas gráficas animadas que jazem por cima de uma flor estendida por cima de uma folha de papel. Esta folha, demora-se a mudar de cor.
Ainda assim, é na sombra projetada por um sol de meio dia, carregando uma luz dura sobre as pétalas e as folhas da flor pousada, que podemos estabelecer a ligação com o momento presente da fotografia, o mesmo momento do ato fotográfico, esperado para reproduzir a impressão da luz sobre a folha de papel exposta ao sol. É essa mesma luz marcada, que retira os contornos e texturas dos elementos em perspetiva, figurados na experiência caracterizadora de um Deus-Sol que demanda a passagem do tempo, tal como são entendidos os ciclos para dar lugar ao novo. Pela via da espera, o fotógrafo imagina-se capaz de produzir diferentes instantes. Conclui-se, portanto, que a espera, mais que a interrupção do momento presente, transforma-se no instrumento dos fotógrafos modernos. Segundo Martin Jay trata-se de uma perspetiva “atemporal, desencarnada e transcendental”. Existe ainda a considerar na fotografia apresentada, a caracterização do espaço vazio na folha de papel. Se lhe deixo tanto espaço em branco (negativo), considero o tempo futuro em que qualquer pessoa, fotógrafo ou não, possa utilizar-se desta mesma imagem e considerá-la sua, na perspetiva da sua reutilização. Ela poderá ser utilizada para suprimir o espaço em branco e ser reinventada num futuro próximo. A folha no seu caso, pode ser preenchida com outras sombras carregadas pela luz do sol, a flor colorizada, a relva recortada. Só o tempo, enfim dará conta do resto da história.

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